Como o ladrão na cruz…

“O mundo diz que ‘tempo é dinheiro’ e incentivam a todas as pessoas a correrem atrás do dinheiro, como se isso fosse o mais importante a se fazer na vida.
Por causa disso as pessoas se matam de trabalhar por causa do dinheiro, se esquecem de viver para Deus.
No final da vida, quer tenham enriquecido, ou não, de forma honesta, ou não, descobrem que não passam de miseráveis que necessitam da misericórdia de Deus.
Quer alcancem a salvação, ou não”.
Francisco Erdos

Texto Bíblico: Lucas 23.39-43

39 Um dos malfeitores crucificados blasfemava contra ele, dizendo: Não és tu o Cristo? Salva-te a ti mesmo e a nós também.
40 Respondendo-lhe, porém, o outro, repreendeu-o, dizendo: Nem ao menos temes a Deus, estando sob igual sentença?
41 Nós, na verdade, com justiça, porque recebemos o castigo que os nossos atos merecem; mas este nenhum mal fez.
42 E acrescentou: Jesus, lembra-te de mim quando vieres no teu reino.
43 Jesus lhe respondeu: Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso.

(ARA – Almeida Revista e Atualizada)

INTRODUÇÃO

Vamos meditar sobre o dia da nossa morte. Ainda que seja um assunto desagradável e que procuramos evitar ao máximo, o dia certamente chegará! E é melhor que estejamos preparados, para aquele dia inevitável.

Porque usar o texto da salvação do ladrão na cruz, em Lucas 23, para esta meditação? Porque não usar outro texto, tal como a morte do mendigo Lázaro que morreu e foi para o seio de Abraão no Evangelho de Lucas, ou Lázaro irmão de Maria e Marta, que Jesus ressuscitou no Evangelho de João?

Com certeza somos piores do que gostaríamos de ser, isso é decorrente de nossa condição de pecadores. O apóstolo Paulo chega a esta conclusão quando diz: “Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem nenhum, pois o querer o bem está em mim; não, porém, o efetuá-lo. Porque não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço” (Rm 7.18-19).

Dessa forma o texto de Lucas 23 analisado presta-se muito bem ao propósito pretendido nesta lição, já que, devido a nossa condição de miseráveis pecadores, estaremos sempre dependentes da misericórdia de Deus.

Haverá uma luta por não querermos estar ali, em um leito de morte [ou em qualquer outro lugar, onde iremos sentir que em alguns momentos a seguir, estaremos partindo para a eternidade], e então teremos a percepção como o ladrão na cruz percebeu, que daquela situação não haverá meios de escapar.

No texto vemos que o ladrão na cruz sabe que a morte vem ao seu encontro. Ele olha e consegue ver que ao seu lado está Jesus, Aquele que estava pregando as boas novas para a sua salvação. A pessoa que está do outro lado de Jesus, o outro ladrão, não tem essa percepção, não consegue compreender quem Jesus é, não tem a esperança da salvação.

O ladrão arrependido está próximo da morte e tudo começa a ficar claro na sua cabeça. Ele sabe que foi Deus quem o colocou nesse lugar e dali não se levantará mais. Deus o colocou naquele lugar de morte para que faça a última avaliação da sua vida. As recordações afloram em sua mente e ele se lembra de tudo o que aprendeu, e que deveria ter aplicado em sua vida, de forma plena, mas não foi isso que fez. Fez muito pouco no que se refere: a amar; a ter misericórdia; a ajudar; a trabalhar; a perdoar; a falar somente o bem.

Ele se dá conta que vai faltar às pessoas que ama: ao cônjuge, aos filhos, ao pai, à mãe, aos irmãos, aos amigos e parentes. Vai parar o amor, o perdão, os planos,… Ali prostrado ele não poderá fazer mais nada. Ele sente a frustração, porque sabe que poderia ter feito um pouco mais. Que poderia ter feito melhor.

I. MERECEMOS SER CASTIGADOS (39-41)

Somente o Evangelho de Lucas tem esta narrativa. Lucas conta a história de um pecador que se arrepende de verdade, nos momentos finais de sua vida. Inicialmente os dois ladrões blasfemavam de Jesus repetindo o que os líderes religiosos falavam (Mt 27.44; Mc 15.32). Porém, um deles avaliou a sua vida e reconsiderou o que estava acontecendo e se arrependeu. Reconheceu-se culpado e merecedor de padecer a morte na cruz. Reconheceu também a inocência de Jesus e por fim se converteu a Cristo.

O que levou este ladrão a se converter pode ter sido o medo de cair nas mãos do Deus vivo (Hb 10.31), ou a conduta serena de Jesus naquela situação, ou as coisas que ouviu a respeito de Jesus, que certamente é a obra do Espírito Santo em sua vida. De qualquer forma, recebeu a maravilhosa salvação em Jesus e foi com Ele [1].

Destaca-se a maravilhosa mensagem que esta passagem traz para a salvação das almas que estão perdidas em seus pecados. Nesta história vemos a soberania de Deus, em salvar os pecadores, colocada em ação para salvar apenas um deles. Os dois ladrões, um de cada lado de Jesus, viram e ouviram tudo o que estava acontecendo. Tinham consciência da miserabilidade deles naquele momento onde passavam por dores atrozes. Eram pecadores e precisavam do perdão de Deus, mas somente um deles se arrependeu e se converteu. O outro morreu em seus pecados com o coração endurecido, sem se arrepender. Tal como acontece hoje nas Igrejas: o sermão é pregado, pessoas são transformadas e recebem a salvação, mas há outras pessoas indiferentes, pois a mensagem não tem nenhum sentido para elas. A verdade do evangelho é revelada para alguns enquanto para outras permanece oculta [2].

II. PRECISAMOS SUPLICAR POR MISERICÓRDIA (42)

Analisando o ladrão que recebeu a salvação, verificamos que há evidências nítidas do arrependimento dele que foram manifestas através das suas palavras:

  • ao repreender o seu colega, por este estar insultando a Cristo;
  • ao reconhecer-se pecador e merecedor de estar passando por aquele sofrimento;
  • ao declarar a inocência de Jesus;
  • ao demonstrar a sua fé em Jesus confessando-o como seu Senhor e;
  • ao pedir a Jesus que se lembrasse dele quando viesse em Seu reino.

Não se deve deixar de mencionar também a sua humildade. Ele não pediu nada grandioso, mas sim, que Jesus somente se lembrasse dele. Ele teve um tempo curto para demonstrar a sua conversão, mas o tempo foi bem utilizado [3].

MacArthur explica que: “o ladrão penitente expressou sua fé de que a alma vive após a morte, que Cristo tem o direito de governar sobre um reino das almas dos homens, e que ele poderia entrar nesse reino a despeito de sua morte iminente. Seu pedido para ser lembrado é um apelo por misericórdia, o que também revela que o ladrão tinha compreendido que ele não tinha esperança a não ser pela graça divina e que a dispensação dessa graça estava sob o poder de Jesus” [4].

Mas, de onde vem essa compreensão do ladrão arrependido sobre Jesus e o Seu reino? Poderia ser que tivesse ouvido alguma pregação de Jesus, ou ouvido outras pessoas comentarem a respeito de suas predições e da sua vinda em glória, no final dos tempos. Ele pede a Jesus que se lembre dele no futuro, e apenas isso, que se lembre dele para o bem [5].

III. CERTAMENTE SEREMOS SALVOS (43)

O pedido do ladrão arrependido estava de acordo com a sua consciência de que nada merecia. Neste caso, qualquer cantinho no céu, “mesmo que fosse fora do palácio” estaria bom! Mas Deus sempre está disposto a nos dar muito mais do que pedimos, quando estamos em obediência, conforme explica o apóstolo Paulo: “Ora, àquele que é poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo quanto pedimos ou pensamos, conforme o seu poder que opera em nós, (Ef 3.20)”. A ousadia do ladrão arrependido chegou somente a isto; “lembra-te de mim”, porém recebeu muito mais do que havia pedido: Fez seu pedido para receber em uma data futura, e recebeu “hoje”. Pediu para ser lembrado e Jesus lhe disse: “estarás comigo no Paraíso”. E onde é o Paraíso? A resposta está no livro de Apocalipse: “Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas: Ao vencedor, dar-lhe-ei que se alimente da árvore da vida que se encontra no paraíso de Deus” (Ap 2.7), ou seja, o Paraíso é o céu, a habitação de Deus, conforme também Ap 22 [6].

Em toda a Bíblia não encontramos nenhum relato acerca da graça de Cristo que possa se comparar a este. Mesmo naquela situação de fraqueza Ele ouviu a oração do ladrão arrependido, um pecador ímpio que não tinha nada em seu passado que o referenciasse. É como uma pessoa do mundo de hoje que não havia sido batizada, não pertencia a uma Igreja e nem recebido a ceia do Senhor. A demonstração do poder e misericórdia de Jesus, agonizante na cruz foi notável [7].

CONCLUINDO

Podemos verificar que a maior prova de que a salvação é pela graça e não por obras (cf. Ef 2.8-9) é esta história do ladrão arrependido.

Pode haver pessoas que tenham conhecimento dessa história e, longe da Igreja, imaginam que podem se valer da misericórdia de Deus no último momento de suas vidas.

Porém eles devem ter cuidado com o arrependimento sem evidência. Jesus olhou no coração do ladrão que o confessou como seu Senhor e viu que havia arrependimento verdadeiro em seu coração. Por isso o salvou.

Muitos partem deste mundo, abraçados com a mentira, na imaginação de serem salvos como este ladrão, mas se esquecem do arrependimento [8].

Quando chegar a nossa hora de partir, que possamos ter a serenidade de Paulo, já prevendo a sua partida definitiva desta terra em direção ao céu, sabendo que, tendo dedicado sua vida ao Senhor, cumpriu da melhor forma possível, fazendo o que estava ao seu alcance, tudo aquilo que o Senhor determinou que ele fizesse.

Que posamos proferir as mesmas palavras de Paulo quando disse: “Quanto a mim, estou sendo já oferecido por libação, e o tempo da minha partida é chegado. Combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé. Já agora a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, reto juiz, me dará naquele Dia; e não somente a mim, mas também a todos quantos amam a sua vinda” (2Tm 4.6-8)


Notas Bibliográficas:

[1] HENDRIKSEN, William. Comentário do Novo Testamento, Exposição do Evangelho de Lucas, v. 2. São Paulo: Cultura Cristã, 2003, p. 657.

[2] RYLE, J. C. Meditações no Evangelho de Lucas. São José dos Campos: Fiel, 2002, p. 375

[3] Ibidem p. 376.

[4] MACARTHUR, John. Lucas, Estudos Bíblicos John MacArthur. São Paulo: Cultura Cristã, 2011, p. 79.

[5] HENDRIKSEN, op. cit. p. 658

[6] Ibidem, pp. 658-659

[7] RYLE, op. cit. p. 377

[8] RYLE, op. cit., pp. 376-377

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